Baby você é a única

Psicanálise e protestos II, do Trauma ao Fascismo

2020.07.02 07:20 clathereum2 Psicanálise e protestos II, do Trauma ao Fascismo

Em um artigo encantador da psicanalista e professora da faculdade de medicina da UFRJ, Liana Albernaz, temos à disposição uma bela reunião de ideias que nos ajudam a pensar melhor a estruturação do fascismo e a desigualdade na luta entre os que o erigem e os que estão mais empenhados em lutar contra esse movimento: os traumatizados. O movimento de barbárie acrescida que é a performance fascisizante mostra-se resistente quando atacado porque sua estruturação se dá com a retirada do poder pleno da arma que lhe pode derrubar: o discurso. Tirando a força plena do discurso erige-se fenomenalmente o trauma.
Adicionado a isso, a resistência à simbolização do real que reitera, o tempo todo, que o outro tem algo de mim, algo inquietante que clivei e que não vejo mais, intensifica e distancia ainda mais estes dois polos, fazendo até com que os outros, distribuídos ao longo do espectro trauma-fascismo se sintam perdidos, "na lama", como diz a Liana, e sem saberem limpar-se nessa poça, como pede o Zaratustra, do Nietzsche.
"O bárbaro é aquele que se vê impelido, pela pobreza da experiência, a ir em frente e começar de novo a construir com pouco, de maneira implacável, sem olhar para os lados nem para trás" (Benjamin, 1933/1987a, citado por Albernaz, p.76);
Ao analisar a obra cinematográfica brasileira "Praça Paris", filme no qual uma psicanalista branca atende uma favelada preta, a autora elabora uma interpretação do trauma que põe em relevo e revela o bojo do social na sua perpetuação e manutenção - onde descobrimos também o facismo.
"O elemento fundamental que produz um trauma desestruturante é o desmentido. Este, no modelo do trauma sexual, é a negação ou a indiferença de um adulto diante de uma criança quando ela o procura para simbolizar uma experiência pela qual passou. Os danos provocados pelo desmentido são catastróficos se ainda não está pronta a constituição narcísica do sujeito.
A estrutura do desmentido é triangular: há um adulto agressor, uma criança agredida e outro adulto ao qual a criança pode recorrer. É esse segundo adulto que pode emprestar sentido à experiência da criança. A experiência vivida pela criança, incompreensível para ela, é dotada de tal intensidade que a criança não consegue metabolizá-la por si só. É pura angústia. Ao buscar amparo com um adulto, este pode acolhê-la e significar o acontecido ou falhar nessa função, desmentindo.
(...)
O paradoxo do trauma se sustenta assim: seu destino subjetivador ou dessubjetivador depende do processo de afetação com o mundo, isto é, tanto do sujeito quanto da função terceirizante da rede social que o cerca. O trauma é, portanto, um conceito que está na interface do interno e o externo, do sujeito e da cultura.
A rede de afetação positiva permite processos introjetivos, trocas sensoriais, afetivas e linguageiras, garantindo a impressão de marcas psíquicas, base da potência criativa. Quando a rede de base - que envolve o sujeito e o social - deixa de prover essa possibilidade, o que se vive é o horror manifesto como violência" (idem, pp. 80-81)
Neste belo trecho há um quadro que podemos pensar não como exausto mas como proposta explicativa e instigativa de refletir sobre o quadro fenomenal do trauma. Substitua-se, por exemplo, no triângulo formador do trauma, os 2 adultos pela estrutura que oprime e a estrutura que deslegitima o discurso. Há aí uma espiral desesperadora de produção de desamparo, no qual até mesmo a forma de protestar perde seu vigor afetivo ao atingir os ouvidos que é suposto atingir, porque estes podem considerar esses discursos falaciosos, rancorosos, etc.
O aborto pela boca do pai; a negação dos abusos infantis e de idosos; o abuso de poder contra adolescentes de tez mais escura e mais pobres nas favelas por parte da polícia; a discriminação em relação pessoas de sexualidade diferente da maioria, são ações performativas que estruturam um trauma ao mesmo tempo que possuem o papel do "outro adulto", o Outro, as instituições que deveriam ser ouvidos, mas que desmentem porque puseram um gatilho no lugar do tímpano. Como Adam Phillips trouxe, "o ouvido fala melhor do quê qualquer língua". A recusa a ouvir a realidade da alteridade e da humanidade, do sentimento de "mesmidade" (sameness) presente, em potencial, em todos nós, fundamenta tal interpretação. Dá-se 80 tiros porque se sente mais e mais desconfortável ao perceber, nos momentos finais da retirada de uma vida, que "talvez aquele a ser assassinado não seja tão diferente de mim. Isso não me agrada, logo, atiro mais".
Pôr certas figuras como representantes de discursos é uma resposta afetiva de complexos não bem resolvidos dos indivíduos "normais", com o perdão da palavra. Ao trazer à tona, também, o Freud de "Totem e Tabu" e "Psicologia das massas e análise do Eu", a autora nos relembra do caráter paterno, da transferência do ideal do eu colocado naquele que pensam ser um deles pelas invectivas e discursos permeados de afetos que atacam, com desmesurada força, o que perigosamente se pensa ser objetivamente ruim; onde se pensa haver um consenso nacional. "Vocês também deveriam concordar que bandido bom é bandido morto! Qual a falha nesse argumento! Que importa se outras questões - que nem há consenso sobre serem problemas mesmo ou não - fiquem escanteadas?". Esse discurso periferiza variáveis que a realidade não se atém em mostrar todos os dias: os vieses raciais, sexuais, etc.
Monumentos, estátuas, documentos - a burocracia mesma enquanto monstro kafkaesco que produz as mais alienáveis vertigens e cegueiras à leitura que melhor considera as variáveis explanatória das mazelas sociais - são também uma perpetuação e romantização de morais obsoletas, contumazes à crítica contemporânea dos grupos resilientes que continuam em sua luta pela procura desamparada - enquanto crianças que somos todos nós parcialmente - de um ouvido que as ouça, que não desminta seus traumas cotidianos. Não é preciso um psicanalista pra isso; é preciso um ouvido. Você pode me dizer: "é fácil falar." Deveras. Difícil mesmo é ouvir, ouvir sem criar esse tipo de réplica infértil como um "pensamos diferentemente e tá tudo bem nisso". Mas pensar diferentemente não exclui, de todo, a possibilidade de mutações nas duas diferenças de modo que ao fim de uma discussão, continuem sendo posições diferentes e, ainda assim, mais maduras. De grão em grão.
Trazendo Walter Benjamin, Klein, Ferenczi, Freud, Goethe, Hegel, Arendt, dentre outros, este artigo, de 2018, continua relevante.
Podemos pensar ainda na contribuição de Adorno e Wilhelm Reich para, especialmente, a parte fascista do espectro trauma-fascismo. Não é algo novo a reiteração das ideias alemãs na literatura também. Na obra magna de Jonathan Littell, temos uma conversa curiosa do Aue com um médico dos KL's, (campos de concentração da Alemanha nazista)
"Tive uma conversa interessante com o Dr. Wirths a respeito, justamente, dessa questão da violência física, pois ela me lembrava problemas já encontrados nos Einsatzgruppen. Wirths concordava comigo, dizendo que até mesmo homens que a princípio batiam unicamente por obrigação acabavam por tomar gosto daquilo. 'Longe de corrigir os criminosos empedernidos', ele afirmava com veemência, 'nós homologamos sua perversidade ao lhes conceder todos os direitos sobre os outros prisioneiros. Chegamos inclusive a criar novos entre nossos SS. Esses campos, com os métodos atuais, são um foco de doenças mentais e desvios sádicos; depois da guerra, quando esses homens voltarem à vida civil, teremos um problema considerável nos ombros'. Expliquei-lhe que, pelas minhas informações, a decisão de transferir o extermínio para os campos decorria em parte dos problemas psicológicos que suscitava no seio das tropas designadas para as execuções em massa. 'Tudo bem', respondeu Wirths, 'mas eles apenas deslocaram o problema, principalmente ao misturar as funções do extermínio com as funções correcionais e econômicas dos campos comuns. A mentalidade engendrada pelo extermínio transborda e afeta todo o resto. Tive muita dificuldade para dar fim a essas práticas. Quanto às derivas sádicas, são frequentes, sobretudo entre os guardas, e frequentemente ligadas a distúrbios sexuais.' - 'O senhor tem exemplos concretos?' - 'É raro virem me consultar. Mas acontece. Há um mês, conversei com um guarda que está aqui há um ano. Um homem de Breslau, trinta e sete anos, casado, três filhos. Ele me confessou que espancava detentos até ejacular, até mesmo sem se masturbar. Ele não tinha mais nenhuma relação sexual normal; quando recebia uma licença, não voltava para casa, tamanha sua vergonha. Mas antes de vir para Auschwitz, ele me disse, era perfeitamente normal.' - 'E que fez por ele?' - Nas condições vigentes, não posso fazer muita coisa. Ele precisaria de um tratamento psiquiátrico contínuo. Tentei transferi-lo para fora do sistema dos campos, mas é difícil: não posso dizer tudo, senão ele será preso. Ora, é um doente, precisa de tratamento.' - E como acha que esse sadismo se desenvolve?', perguntei. 'Quero dizer em homens normais, sem nenhuma predisposição que se revelasse apenas nessas condições?' Wirths olhava pela janela, pensativo. Levou um longo momento para responder: 'Esta é uma questão sobre a qual refleti muito, e resolvê-la é muito difícil. Uma solução fácil seria culpar nossa propaganda, por exemplo, aquela com que Oberscharführer Knittel, que dirige a Kulturabteilung, catequiza nossas tropas aqui: o Häftling é um sub-homem, sequer é humano, logo é absolutamente legítimo espancá-lo. Mas não é simplesmente isso: afinal de contas, animais tampouco são humanos, mas nenhum de nossos guardas trataria um animal como trata os Häftlinge. A propaganda é um fator importante, mas a questão é um pouco mais complexa. Cheguei à conclusão de que o guarda SS não se torna violento ou sádico por julgar que o detento não é um ser humano; ao contrário, seu furor cresce e descamba para o sadismo quando ele percebe que o detento, longe de ser um sub-homem como lhe ensinaram, é, afinal de contas, um homem como ele é, e é essa resistência, veja, que o guarda acha insuportável, essa persistência muda do outro, logo o guarda o espanca para tentar destruir a humanidade comum de ambos. Naturalmente, isso não funciona: quanto mais o guarda bate, mais é obrigado a constatar que o detento se recusa a se reconhecer como não-humano. No fim, a única solução que lhe resta é matá-lo, o que é uma constatação definitiva do fracasso.' Wirths se calou..."
Admitir uma postura madura seria perder simbolicamente o pai. Isso assusta. Pressupõe vigilância e pensamento crítico; pressupõe não olhar mais para um outro específico - um governante ou um consanguíneo - como uma altura a se atingir, como um apêndice que externa nossa força e fertiliza nossa fantasia de força e de "his majesty the baby", de outrora, quando éramos indefesos e nos achávamos completos. Além disso, pressupõe, acima de tudo: uma entrada no pacto da alteridade, desconhecimento e mudança perenes, assim como a assunção da não-compreensibilidade completa, porque afinal, alguém que errou em sua escolha política, afetiva, profissional, etc., ao se dar conta disso agora, ao se perceber da obviedade do seu erro agora, também incorrerá no pensamento inevitável: como não vi isso? Por que agi daquela forma? Então, o que sobra de mim? Adicionado aos traumas e complexos dos agressores - porque, não tenhamos medo de dizê-lo: ao dizer que somos todos iguais dizemos que mesmo os indivíduos errados podem estar em sofrimento, um sofrimento que causa esse modo de agir cáustico - temos um cenário caótico de imaturidade afetiva. Com o grau de renúncia necessário para se manter em sociedade desregulado, portanto, contribuindo para uma alocução libidinal desvantajosa e que soma-se ao trauma como fator desestruturante, há de se perguntar, ao invés de "por que protestam assim?" um "por que demoraram tanto a protestar?" A resposta é velha, simples, repetida diversas vezes: é requerida educação. Agora, com uma especificidade: é requerida educação afetiva; encontro e enfrentamento dos demônios para a construção de uma saúde que aumente a força dos excluídos e faça os excludentes repensarem suas ações.
Fontes:
http://www.bivipsi.org/wp-content/uploads/RBP-3-2018-5.pdf (artigo citado);
"As benevolentes", de Jonathan Littell;
"A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista", de Theodor Adorno;
"The Mass psychology of fascism", de Wilhelm Reich;
Praça Paris, da diretora Lúcia Murat.
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2020.03.06 03:56 altovaliriano A glorificação da guerra e o sonho de Dunk

Em uma “segunda de SSM”, eu tratei sobre uma entrevista que o jornal britânico The Guardian fez com Martin. No final do artigo, o jornalista relata que perguntou a Martin qual era sua cena favorita nos livros e recebeu uma resposta inesperada:
Com isso em mente, ele tem uma cena favorita em que sentiu a escrita realmente acertou em cheio? Eu perguntei plenamente esperando que ele mencionaria um dos momentos mais famosos, como o Casamento Vermelho, por exemplo, ou a morte chocante de Ned Stark no primeiro livro.
Houve uma longa pausa antes que a resposta surpreendente chegasse. “Lembro que houve um discurso que um septão [a versão westerosi de um padre] faz a Brienne sobre homens quebrados e como eles se quebram. Eu sempre fiquei muito satisfeito em ter escrito aquilo”.
O discurso em questão é um pesado e longo monólogo do Septão Meribald dá em O Festim dos Corvos, no 5º capítulo de Brienne. Podrick pergunta se desertores e foras-da-lei de equivalem e Brienne responde laconicamente, mas Septão Meribald dá um resposta longa sobre como os desertores são o resultado da destruição que a guerra dos nobres causa na vida dos plebeus.
A quem conhece um pouco do pensamento de GRRM, a resposta ao jornalista apenas parece refletir sua posição pessoal anti-guerra que permeia toda sua obra, desde a primeira história que vendeu profissionalmente, “O Herói”. Em As Crônicas de Gelo e Fogo, o autor expõe o tempo todo as consequências catastróficas da guerra, tanto para o lado vitorioso quanto para o perdedor.
Inclusive, existe um longo e excelente texto escrito por um expert em armas nucleares que demonstra como Martin se inspirou nestes dispositivos de destruição em massa para criar os dragões de seu mundo e todo o jogo político ao redor de quem vai dominá-los. O fato de alguém conseguir puxar tantos paralelos entre armas nucleares e dragões dá uma pista do tom antiguerra de ASOIAF, além de mostrar o quanto ser baby-boomer influencia na visão de mundo de GRRM.
Como era natural de se esperar, os contos de Dunk e Egg não escapam a este tipo de abordagem. Porém, aqui Martin preferiu manifestar o tema de forma onírica.
Em um recente tópico aqui no valiria, eu tentei explorar as razões que fizeram com que GRRM nos contasse sobre a viagem de Dunk e Egg à Dorne, quando ele parece ter mudado de ideia sobre qual seria o enredo da história sucessora de O Cavaleiro Andante.
Dentre várias razões que apontei para a manutenção da jornada dornesa nos flashbacks de Dunk, eu especulei que a história da morte de Castanha serve como mote para o sonho de Dunk, pois essa história revela como inocentes podem morrer por decisões estúpidas de seus senhores. Mas eu gostaria de acrescentar que inocentes e votos de cavaleiro também morrem quando cavaleiros põem o cumprimento dos deveres para com seus senhores acima de proteger os fracos.
Este é o sentido do sonho de Dunk, emanado do sentimento anti-guerra de Martin, conforme analisarei a seguir.

Um cavaleiro antes de uma espada juramentada

De fato, desde o primeiro treinamento dos plebeus que obedeceram ao chamado de Sor Eustace para a guerra contra a Rohanne fica claro que eles não teriam qualquer chance contra os cavaleiros da viúva.
Quando Dunk afirma que a necessidade de mandar todos a morte por um disputa tão pequena é uma escolha que não cabe a eles, Egg responde com uma alegoria à lição de Sor Arlan, de não dar nomes a cavalos para evitar sofrer quando eles morrem:
– Isso não é você nem sou eu quem vai dizer – Dunk respondeu. – É dever de todos eles ir para a guerra quando Sor Eustace os convoca... e morrer, se necessário.
– Então não devíamos ter dado nomes para eles, sor. Isso só vai tornar a dor mais difícil para nós quando morrerem.
(A Espada Juramentada)
De fato, é incrível a quantidade de parágrafos que GRRM leva descrevendo o processo de “batismo” dos camponeses que tinham nomes iguais. A princípio, eu não entendi porque Martin achou que isso era importante, até que eu comecei a decodificar o sonho de Dunk.
Essencialmente, o que aconteceu com Castanha nas areias de Dorne é o mesmo que está acontecendo em Pousoveloz antes de Dunk começar a pensar em uma saída pacífica para o impasse entre Osgrey e Webber. O sonho é a forma como Dunk, um homem de lealdade inquestionável e raciocínio lento, começa a perceber as consequências da obediência cega que tem prestado a Sor Eustace.

O Prólogo de um sonho

Antes de passarmos à análise do sonho, um pequeno parágrafo precisa ser examinado. Quando Dunk se deita para dormir, ele lembra dos eventos do torneio de Vaufreixo, especialmente das tragédias que ocorreram naquele dia:
Supostamente, estrelas cadentes traziam boa sorte, então ele pediu para Tanselle pintar uma em seu escudo. Mas Vaufreixo trouxera tudo menos sorte para ele. Antes que o torneio acabasse, ele quase perdera uma mão e um pé, e três bons homens perderam a vida. Ganhei um escudeiro, no entanto. Egg estava comigo quando deixei Vaufreixo. E essa foi a única coisa boa de tudo o que aconteceu.
Esperava que nenhuma estrela caísse naquela noite.
(A Espada Juramentada)
Estes pensamentos antes do sonho provavelmente é o que desperta a memória de Dunk e faz com que Baelor e Valarr surjam em seu sonho. Contudo, Dunk cita que três pessoas morreram naquele dia, mas Valarr não era era uma delas.
Essa distinção é importante para entendermos como o subconsciente de Dunk parece estar funcionando durante o sonho. Como veremos a seguir.

Decodificando

Vamos analisar o sonho na íntegra.
Havia montanhas vermelhas a distância e areias brancas sob seus pés. Dunk estava cavando, enfiando uma pá no solo seco e quente e jogando a fina areia branca por sobre os ombros. Estava fazendo um buraco. Um túmulo, pensou, um túmulo para a esperança. Um trio de cavaleiros dorneses estava parado observando e zombando dele em voz baixa. Mais além, comerciantes esperavam com suas mulas, carroças e trenós de areia. Queriam ir embora, mas não partiriam até que ele enterrasse Castanha. Ele não deixaria seu velho amigo para as cobras, escorpiões e cães da areia.
Aqui Martin estabelece a cena, mas eu quero comentar especificamente as partes em negrito.
Aqueles que lembrarem do que realmente aconteceu no enterro de Castanha, devem desde já estranhar os comerciantes esperando Dunk enterrar o cavalo.
Eu não entendi a parte do túmulo à esperança quando li a primeira vez. Mas agora que sabemos que Castanha está sendo usada como alegoria às vítimas das guerras caprichosas dos nobres e à lealdade cega de seus cavaleiros, seu significado fica evidente.
Dunk está pessoalmente cavando um túmulo para os mais fracos, as pessoas que um cavaleiro jura proteger. As pessoas que viram valor nele quando ele enfrentou Aerion por Tanselle. E ao virar as costas para elas, Dunk se torna um cavaleiro hipócrita, como os demais.
Quanto aos três cavaleiros dorneses, a seguir veremos que eles não são os cavaleiros dorneses que estavam com Dunk, mas Sor Arlan, Baelor Quebralanças e Valarr. Martin preferiu apresenta-los aos poucos durante o sonho, por isso suas identidades não são reveladas nesse momento.
Por outro lado, quem lembrar dos detalhes do enterro de Castanha, saberá que não foi assim que os cavaleiros dorneses se portaram.
O castrado morrera de sede, na longa travessia entre o Passo do Príncipe e Vaith, com Egg em suas costas. Suas patas dianteiras pareciam ter se dobrado sob ele e o cavalo ajoelhou, rolou de lado e morreu. Sua carcaça estava ao lado do buraco. Já estava dura. Logo começaria a feder.
Esta realmente parece ter sido a forma como Castanha morreu. Mesmo que valha a pena debater se Martin não está criando um paralelo entre a sede que matou o cavalo e a seca que levaria a morte dos plebeus, me parece que essa parte só está aí para estabelecer o pano de fundo do acontecimento.
Dunk chorava enquanto cavava, para diversão dos cavaleiros dorneses.
Água é preciosa para se desperdiçar – um deles disse. – Não devia desperdiçá-la, sor.
O outro riu e disse:
– Por que está chorando? Era só um cavalo, e bem feio.
Castanha, Dunk pensou enquanto cavava, o nome dele era Castanha, e ele me levou nas costas por anos e nunca empacou ou mordeu. O velho castrado parecia uma coisa lamentável ao lado dos corcéis de areia lustrosos que os dorneses cavalgavam, com suas cabeças elegantes, pescoços longos e crinas se agitando, mas Castanha dera tudo o que podia dar.
É notável perceber que dois dos “cavaleiros” dão mais valor a água do que a Castanha, assim como Eustace (e Rohanne) do que a vida dos plebeus. Contudo, estes “cavaleiros” montam cavalos melhores do que um velho castrado, indicando que eles são de uma estirpe acima da pequena nobreza (como veremos a seguir).
– Chorando por um castrado de costas arqueadas? – Sor Arlan disse, em sua voz de velho. – Ora, rapaz, você nunca chorou por mim, que o colocou sobre as costas dele. – Deu uma risadinha, para mostrar que não queria causar mal com a censura. – Esse é Dunk, o pateta, cabeça-dura como uma muralha de castelo.
– Ele não derrubou lágrimas por mim tampouco – disse Baelor Quebra-Lança, do túmulo. – Embora eu fosse seu príncipe, a esperança de Westeros. Os deuses nunca pretenderam que eu morresse tão jovem.
– Meu pai tinha só trinta e nove anos – lembrou o Príncipe Valarr. – Tinha tudo para ser um grande rei, o maior desde Aegon, o Dragão. – Olhou para Dunk com frios olhos azuis. – Por que os deuses o levariam e deixariam você? – O Jovem Príncipe tinha o cabelo castanho-claro do pai, mas uma mecha loura-prateada o atravessava.
Vocês estão mortos, Dunk queria gritar, vocês três estão mortos, por que não me deixam em paz? Sor Arlan morrera de um resfriado, o Príncipe Baelor, de um golpe dado pelo irmão durante o julgamento de sete de Dunk, e seu filho Valarr, durante a Grande Praga daPrimavera. Não tenho culpa por esse. Estávamos em Dorne, nem mesmo ficamos sabendo.
Sor Arlan é o terceiro cavaleiro, mas o primeiro que vimos ser revelado. Depois, Baelor e, por fim, Valarr. Isso ocorre porque foi nesta ordem que eles morreram, e é a ordem inversa de suas idades.
Enquanto a fala de Valarr é uma repetição quase idêntica do último diálogo entre Dunk e o príncipe (até mesmo as descrições), as falas de Sor Arlan e Baelor se concentram no fato de que Dunk não havia chorado a morte deles, mas agora chorava a morte de um cavalo.
A razão para isso é porque Dunk não foi responsável pelas mortes de nenhum dos três, nem mesmo a de Baelor Quebralanças (ao menos não totalmente). Mas ele foi responsável pela morte de Castanha.
No caso de Valarr, o próprio Dunk não vê culpa sua.
Sor Arlan morreu de um resfriado e os pensamentos de Dunk foram de que “ele teve uma vida longa” e “Devia estar mais perto dos sessenta do que dos cinquenta anos, e quantos homens podem dizer isso? Pelo menos vivera para ver outra primavera” (O Cavaleiro Andante). Portanto, salvo por sentimentalismo, Dunk não havia porque achar que tinha culpa na morte do velho.
Já o Príncipe Baelor entrou no Julgamento dos Setes por conta própria, sem que Dunk sequer cogitasse convidá-lo e para a total surpresa dos Targaryen na equipe dos acusadores. Então, objetivamente não há culpa real de Dunk. Ele não tinha uma escolha real.
Entretanto, mesmo que Dunk sinta-se a culpado, ele sabe que só poderia ser responsável por uma parcela. De fato, como o próprio cavaleiro admite, ele divide o fardo com Maekar: “Você o acertou com a maça, senhor, mas foi por mim que o Príncipe Baelor morreu. Então eu o matei tanto quanto o senhor” (O Cavaleiro Andante).
Contudo, Castanha morreu exclusivamente porque Dunk estava caprichosamente correndo atrás de uma mulher em uma das regiões mais inóspitas dos Sete Reinos.
– Você é louco – o velho disse para ele. – Não vamos cavar nenhum buraco para você quando se matar com essa tolice. Nas areias profundas, um homem deve estocar sua água.
Vá embora, Sor Duncan – Valarr disse. – Vá embora.
A mensagem aqui é bem direta: sacrificar os plebeus em nome do dever como espada juramentada era teimosia inútil, uma “guerra estúpida” como alegara Egg, pois ninguém realmente ligaria se ele morresse ou vivesse.
Egg o ajudava a cavar. O garoto não tinha pá, só as mãos, e a areia voltava para o túmulo tão rápido quanto eles a tiravam. Era como tentar cavar um buraco no mar. Tenho que continuar cavando, Dunk disse a si mesmo, embora suas costas e ombros doessem com o esforço. Tenho que enterrá-lo profundo o bastante para que os cães de areia não o encontrem. Tenho que...
– ... morrer? – perguntou Grande Rob, o simplório, do fundo do túmulo. Deitado ali, tão quieto e frio, com uma ferida vermelha irregular escancarando sua barriga, ele não parecia tão grande.
Dunk parou e o encarou.
– Você não está morto. Você está dormindo no porão. – Olhou para Sor Arlan, em busca de ajuda. – Diga para ele, sor – pediu. – Diga para ele sair do túmulo.
A primeira menção a Egg no sonho é como ajudante de Dunk na missão inútil, o que reflete a última discussão que teve com o escudeiro, na qual conseguiu sua obediência na base da rispidez.
Porém, no meio da tarefa, há a primeira indicação clara de que o ocorrido com Castanha serve de alegoria à situação atual, na qual Dunk está colocando inocentes em perigo ao convoca-los, treiná-los e ficar em negação sobre suas chances.
Até mesmo Sor Bennis, o Marrom, está mais desperto para isto do que Dunk. É claro que o cavaleiro marrom não queria mais trabalho, porém suas atitudes estavam mais voltadas a evitar um banho de sangue do que as tomadas por Dunk.
Com efeito, o cavaleiro não só era contrário a levar a notícia da represa a Sor Eustace, como também não se enganava quanto às chances dos camponeses que estava treinando.
Dunk estava em tamanha negação, que mesmo ao ver Grande Rob mortalmente ferido no buraco em que estava cavando, virtualmente perguntando a Dunk “Tenho que morrer?”, o cavaleiro ainda pediu auxílio a Sor Arlan, seu carinhoso mentor, aquele que lhe ensinou sobre os deveres de uma espada juramentada, que atestasse que nada de errado estava ocorrendo.
Só que não era Sor Arlan de Centarbor que estava parado perto dele, mas Sor Bennis do Escudo Marrom. O cavaleiro marrom só gargalhou.
– Dunk, pateta – disse –, destripar é algo lento, certamente. Mas nunca conheci um homem que viveu com as entranhas penduradas. – Uma espuma vermelha borbulhou em seus lábios. Ele se virou e cuspiu, e as areias brancas beberam tudo.
Buco estava parado atrás dele com uma flecha no olho, chorando lentas lágrimas vermelhas. E lá estava Wat Molhado também, a cabeça cortada quase na metade, com o velho Lem e Pate olho-vermelho e todo o resto. Todos tinham mastigado folhamarga com Bennis, Dunk pensou de início, mas então percebeu que era sangue escorrendo por suas bocas. Mortos, pensou, todos mortos, e o cavaleiro marrom zurrava.
– Sim, melhor se manter ocupado. Tem mais covas para cavar, pateta. Oito para eles, uma para mim, uma para o velho Sor Inútil e a última para seu garoto careca.
Porém, no lugar de Sor Arlan estava Sor Bennis. Isto é o sinal de que não havia lição de honra a ser aprendida, só a realidade nua e crua finalmente se mostrando a Dunk.
Todos morreriam na guerra e tudo seria absorvido e justificado por ela. Até mesmo pessoas que Dunk julgava estarem fora do alcance do conflito, como Egg.
A pá escorregou das mãos de Dunk.
– Egg – gritou –, fuja! Temos que fugir! – Mas as areias escorregavam sob seus pés. Quando o garoto tentou se precipitar para fora do buraco, tudo desmoronou. Dunk viu as areias cobrirem Egg, enterrando-o enquanto ele abria a boca para gritar. Tentou abrir caminho até o escudeiro, mas as areias erguiam-se por todos os lados, puxando-o para o túmulo, enchendo sua boca, seu nariz, seus olhos...
Apesar da alegoria, o sonho aqui mostra bem claramente que a indolência de Dunk levaria todos para dentro do túmulo que Dunk estava escavando para aqueles que morreram porque ele fechou os olhos.
A mensagem anti-guerra que parece estar subjacente aqui é a de que o cumprimento cego do dever não absolve ninguém da responsabilidade pelos mortos, e o conflito atinge a todos indiscriminadamente. E as consequências nefastas da guerra estão por todo nas terras Osgrey. Seja nas vilas ou nas amoreiras.

O epílogo de um sonho

Para finalizar, é preciso analisar o que realmente aconteceu durante o enterro de Castanha.
A primeira coisa a entender é que Dunk não chorou e não houve enterro nenhum:
Nunca chorei. Posso ter tido vontade, mas nunca chorei. Ele tentara enterrar o cavalo também, mas os dorneses não esperaram.
Porém, a lição que Dunk ouviu de um dos cavaleiros dorneses era relativa ao ciclo da vida e a aceitação de que os animais carniceiros que viriam cear da carne de Castanha estavam protegendo a sua própria prole:
– Cães de areia precisam alimentar seus filhotes – um dos cavaleiros dorneses dissera para ele enquanto o ajudava a tirar a sela e os arreios do castrado. – A carne dele vai alimentar os cães ou as areias. Em um ano, seus ossos estarão totalmente limpos. Isso é Dorne, meu amigo.
A partir desta mensagem é que Dunk, já acordado, faz uma nova reflexão sobre as eventuais mortes dos plebeus. Porém, nem mesmo nesta nova meditação Dunk é capaz de achar significado algum para que os novos soldados de Osgrey percam suas vidas:
Ao lembrar-se daquilo, Dunk não pôde deixar de se perguntar quem se alimentaria das carnes de Wat, Wat e Wat. Talvez haja peixes xadrezes no Riacho Xadrez.
Encerrada a questão no plano onírico e no plano racional, não surpreende que Dunk tenha, logo depois do treinamento, perguntando a Sor Osgrey por uma alternativa.
Uma espada juramentada deve serviço e obediência ao seu suserano, mas isso é loucura.

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2019.09.20 05:49 altovaliriano Entrevista de 2006: Fantasia pra quem não lê de fantasia

Nesta longa entrevista, vocês verão Martin:
  1. falar sobre como ele quase foi o roteirista de "John Carter - Entre Dois Mundos" em 1993 (6ª resposta);
  2. criticar puritanismo dos leitores (16ª resposta);
  3. contar que a editora tirou desenhos de temas medievais das capas para que os leitores casuais de fantasia não passassem vergonha (17ª resposta);
  4. cutucar J. K. Rowling e Dan Brown com uma única tacada (19ª resposta).

Link: https://www.abebooks.com/docs/Fantasy/george-martin.shtml
Autor: Andrea Warner

[...]
AbeBooks: Você se lembra da primeira história que escreveu quando criança?
George: Primeira história ... Eu provavelmente ainda a tenho em uma gaveta em algum lugar. Eu sou um verdadeiro rato-trocador; eu guardo tudo. Eu tenho [em] uma gaveta, uma trunk story (vai depender do que você define como sendo uma história). Eu tenho um livreto; é como uma enciclopédia espacial que escrevi quando criança. Um desses blocos, com capas marmoradas, sabe. Onde você pega sua caneta e preenche a parte branca até que ela fique preta e azul? Está tudo escrito em um desses. Uma Enciclopédia dos Planetas, comigo fazendo a arte, que consistia principalmente em eu desenhar um círculo e depois escrever algumas coisas sobre o planeta. Era uma estranha mistura de fato e ficção. Tem Marte, desenhado como o planeta vermelho e que tem canais, assim como tem o planeta Orm ou algo feito por mim, no qual eu inventava coisas. E tem os planetas de Flash Gordon e Rocky Joe Space Ranger, que é um programa que eu assistia, junto com planetas que foram inventados inteiramente por mim (até onde eu saiba), junto com planetas reais. Eram parecidos como estampas [block printed]. Devo ter feito na primeira série, porque eu ainda não havia aprendido caligrafia, o que acho que ocorre na segunda série. (Risos)
AbeBooks: Uau. Isso mostra muita dedicação para alguém tão novo.
George: Claro que não está terminado. Não terminei nada durante décadas.
AbeBooks: Então você se interessou por ficção científica desde que era bem jovem?
George: Sim, é o que eu sempre li mesmo. Costumo pensar que foram as histórias em quadrinhos que me fizeram um leitor. Você aprende a ler na escola com Dick e Jane, mas o material de Dick e Jane era tão chato! (Risos) Run, Dick, run. See Spot run. Sabe, as histórias eram estúpidas, mesmo para uma primeira ou segunda série. Anos mais tarde, vi alguns dos famosos McGuffey readers, com coisas que a geração de minha mãe leria nas décadas de 1930 ou 1920, e elas estavam cheias de histórias reais de escritores reais, com que as crianças estavam aprendendo. Mas [em] minha geração, os baby boomers, nós tínhamos Dick e Jane, e isso não conseguia me convencer a continuar lendo. Mas Batman e Superman conseguiam: eles eram muito mais interessantes que Dick e Jane. E quando eu encontrei histórias em quadrinhos, eu as amei e as li por anos.
AbeBooks: Eu sei que você trabalhou em Hollywood por alguns anos. Você já pensou em trabalhar ou adaptar algo para uma franquia do Batman ou algo semelhante?
George: Bem, você sabe que eu tenho minha série Wild Card, que é minha própria versão de Super Heróis, mas não se pode simplesmente adaptar o que quiser para Hollywood. É necessário esperar que um estúdio o contrate. Eu fiz entrevistas para alguns trabalhos do tipo Super-Herói, mas eu nunca consegui nenhum. Foram feitas algumas boas adaptações nos últimos anos. Nas franquias X-Men e Spiderman, em particular, fizeram um bom trabalho. Em minha primeira publicação em uma revista profissional, não recebi nada, mas foi no Quarteto Fantástico #17. Foi uma carta. (Risos) Dizia algo como "Stan Lee, melhor que Shakespeare".
AbeBooks: Quais escritores você mais admira?
George: Isso daria uma lista longa. Os escritores tiveram maior impacto sobre mim quando eu era jovem; quando se é mais impressionável. Você tem menos experiência de vida, é mais provável que fique impressionado. Eu li ficção científica, fantasia, horror, sem restrições; não fiz distinções de gênero tão definidas como outras pessoas fazem hoje em dia. Robert A. Heinlein certamente foi meu escritor favorito. Um amigo de minha mãe me deu uma cópia impressa de Have Spacesuit - Will Travel e Scribner's Juveniles. Foi o primeiro livro de ficção científica que li e foi por muitos anos o único livro de capa dura que eu possuía, porque não podíamos pagar por capas duras. Mas ele me viciou em ficção científica, então, em vez de comprar quatro histórias em quadrinhos, eu comprava uma brochura por 35 centavos. No ensino médio, li O Senhor dos Anéis de Tolkien, e ainda é um livro que admiro muito. Releio-o de anos em anos, ou ao menos repasso alguma passagem dele. H. P. Lovecraft teve um grande impacto em mim em certo momento. Horror... suas histórias me assustaram muito. Robert E. Howard - você sabe, Conan, o Bárbaro, é ótimo para um garoto de 13 anos. É uma boa idade para descobrir Conan. Certos escritores é necessário ler em determinadas idades.
AbeBooks: Eu concordo inteiramente.
George: Veja, eu senti falta de Edgar Rice Burroughs. Anos depois, na minha época em Hollywood, fui contratado pela Disney para adaptar Uma Princesa de Marte, então peguei Edgar pela primeira vez e (risos) ele não é um bom escritor para experimentar aos 45 anos.
AbeBooks: Quando você estava criando a série Gelo e Fogo, de onde você tirou inspiração?
George: Até certo ponto, depende de quando você está falando. A primeira ideia da série me ocorreu em 91, quando eu trabalhava principalmente em Hollywood. O primeiro capítulo veio a mim muita vivadamente. Eu escrevi cerca de 50 páginas até que Hollywood me ligou novamente, e tive que colocá-las em uma gaveta pelo que acabou sendo um par de anos. Naquele estágio, eu realmente não sabia o que eu tinha ali. Alguns anos depois, voltei e a coisa ainda estava tão fresca como quando a havia escrito. Finalmente, escrevi cerca de 150 páginas e um breve resumo sobre onde eu achava que a história iria. Naquele momento, eu a visualizei como uma trilogia de fantasia, com apenas três livros ao invés dos sete que agora visualizo.
AbeBooks: Surge um certo apego com os personagens enquanto se lê a saga e, de repente, eles estão mortos. (George ri) É de roer as unhas! Algum de seus editores já expressou preocupação com personagens principais sendo mortos?
George: Não, todo mundo parece gostar disso.
AbeBooks: É ótimo de ler, me deixa aterrorizada.
George: Bem, essa é a ideia - que você deva se importar. Se o personagem estiver em perigo, você deve ter medo de virar a página.
AbeBooks: Eu li que Tyrion é seu personagem favorito.
George: Não significa que ele esteja seguro. (Risos) Ele é o personagem mais fácil de escrever. Eu gosto da inteligência dele, e ele tem nele uma certa quantidade de tormento e angústia, o que contribui para um bom drama.
AbeBooks: Muitos de seus personagens não estão, de muitas maneiras, livres do pecado, o que é interessante.
George: Eu queria retratar uma certa realidade humana. Não gosto de fantasia onde todo mundo ou é um herói ou é um vilão, preto ou branco. Eu prefiro pintar com tons de cinza. Eu acho que é mais fiel à vida. Somos todos anjos e demônios em uma só pele. Fazemos coisas boas e, no dia seguinte, talvez façamos coisas terríveis.
AbeBooks: Alguns críticos descreveram sua obra como "alta" fantasia. O que isso significa para você?
George: Bem, ela é uma fantasia Tolkien-ista. Digo, você pode cortar a cebola em quantas fatias quiser, mas alguns críticos, para sua conveniência mais do que por qualquer outra coisa, dividiram a ampla área da fantasia em subgêneros, como fantasia "urbana" ou fantasia "sombria".
AbeBooks: Eu li muito pouca fantasia em minha vida, mas embarquei em seus livros de imediato. Eu acho que, em parte, é também pela intriga política.
George: Eu leio fantasia, mas também leio ficção histórica e queria dar a esses livros um pouco do sabor da boa ficção histórica. Nesse sentido, é provavelmente mais sombrio e realista do que a maioria das fantasias épicas.
AbeBooks: Muitas pessoas realmente se esforçam para encontrar paralelos entre a realidade e essas histórias.
George: Eu certamente fui inspirado por coisas da história do mundo real. Eu tento evitar uma equivalência direta. Digo, existem certas semelhanças. Você pode enxergá-las em Aegon, o Conquistador, e William, o Conquistador. Existem certas semelhanças, mas existem diferenças importantes. Guilherme, o Conquistador, não tinha dragões nem se casou com suas duas irmãs. (Risos) Essas são distinções bastante importantes.
AbeBooks: Casar-se com as duas irmãs suscita uma questão interessante. Há quem rotule sua obra como "obscena" porque há incesto e cenas sexuais explícitas. Você se depara com pessoas dizendo: "Eu realmente gosto do trabalho, mas às vezes há muito sexo?"
George: Eu recebo cartas do tipo, de fato. Não são muitas, mas ...
AbeBooks: Bem, historicamente, faz parte da vida.
George: Claro. Bem, não se pode mais se casar com a irmã, mas tenho certeza de que ainda há pessoas que dormem com elas. (Risos) Há um milhão de livros por aí, é o que digo quando recebo uma dessas cartas. Você não gosta muito de sexo em sua fantasia? Existem 37 outros autores que você pode ler que não têm sexo em suas fantasias. Divirta-se. É uma parte importante da vida humana e necessária para qualquer tipo de retrato realista. Essa é o meu público. É um triste comentário sobre a moral americana que o sexo seja a coisa contra a qual as pessoas fazem objeções. Acho triste, mas é verdade. Posso descrever um machado entrando no crânio de uma pessoa e ninguém faz objeções, mas se eu descrever um pênis entrando na vagina, haverá alarde.
AbeBooks: Algumas pessoas dizem: "Ah, evito a fantasia porque a capa é muito idiota" ou algo assim. Percebo que esta capa de O Festim dos Corvos é muito diferente de qualquer uma das capas anteriores.
George: Eles as refizeram na série inteira e agora os livros antigos foram reeditados com capas minimalista e combinando. Há muitas evidências de que meus livros parecem ser a série de fantasia para pessoas que não gostam de fantasia. E meus editores pensam que haveria ainda mais dessas pessoas se pudéssemos alcançá-las, então eles escolheram essa capa minimalista, precisamente para atrair as pessoas que dizem: "Bem, eu não quero ser visto carregando essa coisa com cavalos, cavaleiros, castelos e dragões na capa". Isso irritou alguns dos fãs originais. Recebo cartas dizendo que suas coleções não combinam mais. E também de pessoas que adoravam a arte antiga.
AbeBooks: Mas Funcionou. Digo, número um na lista de best-sellers do New York Times.
George: Parece mesmo estar funcionando. Até para algo tão bem sucedido quanto Harry Potter - reedita-los com uma capa mais adulta.
AbeBooks: Eu não sei como seria possível eles venderem mais cópias de Harry Potter. Eu pensei que todas as pessoas no mundo livre já possuíssem um.
George: Não, eles estão tentando alcançar todas as pessoas que nunca leram outra coisa que não Dan Brown. (Risos)
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2019.07.24 17:17 Balinoiss Gostaria muito de discutir a questão trans mas tenho medo de ser tirada de transfóbica.

Meu nome é Luiza, sou estudante de arte, 25 anos e tenho muito medo de puxar qualquer discussão sobre esse assunto e perder amigos e ser taxada de transfóbica simplesmente por querer debater o assunto para tentar entender melhor. Convivo em um meio em que muitas pessoas se identificam de diversas formas, mas pouquíssimas ou nenhuma se propõe a debater essas questões de forma racional, sem levar pro lado pessoal ou achar que por eu não concordar 100% eu estou "matando pessoas trans".
Vou tentar fazer um resumo de como essa questão se desenvolveu em mim. Alguns anos atras eu estava viajando com uma das minhas melhores amigas desde a infância que é lésbica. Estávamos em um restaurante com a familia dela e em algum momento do jantar a irmã dela falou algo sobre "homens com roupa de mulher" se referindo a pessoas trans. Eu - que sempre fui declaradamente uma defensora das diferenças - na hora chamei a atenção dela sobre estar sendo transfóbica e já taxei ela ali mesmo. Logo depois fomos ao banheiro eu e minha amiga e eu comecei a falar com ela sobre a irmã estar sendo transfóbica e como isso era ruim e perigoso. Na hora, minha amiga olhou pra mim e disse "Mas Luiza, o que é ser mulher? É usar rosa? É ser delicada e maquiada? É usar calcinha?" E eu fiquei com cara de tacho. Ali eu percebi que mesmo sendo mulher a 22 anos, nunca tinha me questionado sobre o que é a condição mulher e nem sobre o que fazia com que uma mulher fosse uma mulher. Em outras conversas ela me contou sobre a ex, que é uma mulher que não se encaixa nos padrões de gênero e por causa disso (por usar roupas consideradas "masculinas" pela sociedade) ficava ouvindo de várias pessoas no meio LGBTTQAI+ que ela era trans. A ex dela nunca aceitou isso e se afirma como uma mulher que pode se expressar como bem entende pois não acredita em "coisa de menino/coisa de menina"
Desde muito pequena (a primeira memória é dos meus 4 anos) eu sempre fui chamada de "Maria João", "mulher-macho", "sapatão" e todos os derivados disso por não seguir a risca a cartilha "feminina" e ser um pouco mais moleca. Eu simplesmente não me sentia bem com toda aquela pressão sexual nem com essa frufruzagem florida e cor de rosa que era empurrada goela abaixo das meninas pra no final tudo ser avaliado na competição de quem é mais bonita (desejável) do que a outra. Passei a vida inteira tendo que ouvir das pessoas que elas tinham certeza de que eu era lésbica pelo meu jeito de ser e de vestir, e sempre tive que explicar que nada disso fazia sentido, pois também não acredito na "cartilha da feminilidade"
O tempo passou e eu mantive essa questão sem muito desenvolvimento dentro de mim, até que comecei a andar com muitas pessoas que se identificam como "mulheres trans", e mesmo que na hora eu não percebesse, me incomodava aquela reprodução dos estereótipos do que é "ser mulher" por parte daquelas pessoas. Sempre extremamente sexualizadas, sempre reproduzindo padrões de roupas, de fala, de "interesses", até que eu comecei a pesquisar na internet canais de youtube de pessoas que falavam sobre o assunto pra tentar entender como essas pessoas definiam o que as fizeram se enxergar como mulheres, já que eu mesma nunca tinha conseguido definir o que era ser mulher pra mim (descartando a definição biológica). Percebi que em TODOS os casos que eu tive acesso eram sempre as mesmas questões: "eu via minhas primas brincando de boneca e com cabelos longos e queria isso também", "eu queria usar vestidos e chorava pedindo brinquedos como os da minha irmã", "eu sempre amei usar maquiagem e detestava esportes". Vi até gente que dizia que "simplesmente sentia-se como uma mulher" sem saber explicar como era isso, e eu, que nunca percebi nada dentro de mim que me fizesse "sentir que era uma mulher" passei a perceber como isso era complicado. Tudo que eu passei na vida em questão de sofrer com o machismo, ou de ser discriminada por não ser feminina o suficiente era em decorrência de ter nascido com uma xoxota. Essa xoxota me fez ser exigida ser sempre linda, ser recatada e "do lar", ser vista como menos capaz, tudo isso vem de brinde com uma xota, então como uma pessoa que nunca passou por isso pode dizer que "se sente uma mulher" só porque gosta do estereótipo feminino? Mulher é uma minoria social, por isso é muito complicado quando alguém quer entrar nesse grupo sem vivência nenhuma alegando simplesmente "se sentir parte". Costumo fazer um paralelo com a questão negra: Negros são uma minoria social, você pode se identificar com estereótipos negros, com a estética das culturas ligadas ao povo negro, mas NUNCA uma pessoa branca vai poder dizer que "se sente negro" e que por isso É negro, porque essa pessoa não tem a VIVENCIA do que é ser negro.
Entendo que uma pessoa que não se adequa ao gênero que foi designado ao nascer seja também uma minoria e que tenha uma vivência completamente diferente de quem é "cis", mas isso não faz com que a pessoa saiba como é a vivência do outro. Um menino que quer usar maquiagem não tem a mesma vivência de uma menina que se não usa maquiagem é tida como desleixada e feia. Mulheres trans pedem pelo direito de fazer coisas que aprisionam mulheres a séculos, coisas das quais as mulheres querem se libertar. Enquanto vejo videos no youtube de mulheres trans dizendo que lutaram pelo direito de saírem maquiadas na rua, vejo amigas que choram e não conseguem ter relacionamentos íntimos por medo de que as pessoas as vejam sem maquiagem e as achem feias. São pautas diferentes, não são a mesma coisa, e dizer que são não é vantagem pra ninguém pois atrapalha na identificação e nomeação de tais problemas para ambos os lados.
As páginas que disseminam conteúdo transativista têm muitas contradições, por exemplo: Cartilhas para "identificar sinais de que seu filho é trans" contém pontos como "perceber se a criança tem interesse por brinquedos e roupas designadas para o outro gênero" - mas ué... então eles acreditam em coisas para menino e coisas para meninas??? Isso não é exatamente reforçar os estereótipos de gênero? O órgão sexual define como a pessoa pode se expressar? Uma pessoa que não se adequa a esses estereótipos precisa então ser tratada com hormônios e fazer uma cirurgia para que seu corpo se adeque a esses estereótipos? Detestar o próprio corpo? Se o menino é "feminino" e a menina é "moleca" então isso é sinal de que ela "nasceu no corpo errado"?? Errado não é dizer pra essas crianças que elas precisam se encaixar nisso? Não é muito mais desafiador das estruturas patriarcais um homem que se afirma como homem e diz que homem pode usar o que quiser e continua sendo homem? Dizer que tem que ser mulher para gostar de coisas "femininas" não é exatamente anti diversidade?
Eu acredito que o Gênero é uma cartilha de regras que te entregam assim que você nasce pra te dizer que como a sociedade capitalista quer que você se comporte para que as estruturas se perpetuem, portanto precisamos questionar isso, mostrar que cada pessoa se expressa a sua própria maneira, e que ninguém deveria ter que se encaixar em caixinhas de comportamento.
Esses dias eu vi uma frase que achei muito explicativa, e pela qual uma professora americana foi rechaçada nessa última semana : Ser mulher não é ter uma "personalidade feminina" e qualquer corpo, mas sim ter qualquer personalidade e um corpo feminino. Essa frase pode ser usada para "ser homem" também.
Apesar dessa confusão eu sempre respeito os pronomes e nomeclaturas, e na verdade eu nem mesmo expresso nada desses questionamentos e acima de tudo trato a todos com muito respeito. Acredito que a única forma de chegarmos todos num consenso é conversar e debater, mas esse assunto mexe muito com traumas e com rejeição, então fica difícil que as pessoas consigam conversar sobre sem se sentirem atingidas pessoalmente e portanto o debate fica praticamente inviabilizado. É muito triste isso, e tem consequências sérias na vida de muita gente, pois mulheres são caladas, invisibilizadas, crianças são confundidas e encaixadas mais ainda nas caixinhas e ninguém pode falar nada pois se não é visto como transfóbico causador de mortes. Mesmo questionando a questão eu sempre vou ser partidária do respeito e anti qualquer tipo de violência.
Minha questão não é que as pessoas parem de se expressar como querem, mas que possam se expressar sem que isso faça com que a pessoa precise tomar remédios pro resto da vida, passar a negar e odiar o próprio corpo e principalmente que a questão das mulheres serem oprimidas principalmente pelo fato de serem geradoras de novos seres humanos e por isso precisarem ter sua sexualidade e subjetividade controladas não seja apagada pelo discurso de que "existem mulheres de pinto", pois a única coisa que TODAS as mulheres tem em comum é serem controladas por possuírem xoxota, e nada mais. Não é cor de rosa, não é calcinha, não é maquiagem nem unha grande.
Espero não ter ofendido ninguém com essa postagem, eu só precisei mesmo colocar isso pra fora porque vi uma postagem de um amigo trans dizendo que ia "desenhar pra quem não entendeu" e seguia uma série de imagens na qual a primeira dizia que uma drag queen era um homem que se expressava artisticamente com "signos de mulheres" com a foto da Pablo Vittar ( de maiô, cabelo de baby liss loiro e maquiagem ) e na hora veio um "CARALHOOOW ENTAO Q PORRA É SER MULHER???" na cabeça. Enfim, esse foi o desabafo, se alguém quiser debater ( com respeito) eu vou ficar muito feliz, porque de forma alguma tenho a pretensão de dizer que minha visão é a correta e pronto, estou muito aberta a mudar de opinião, mas pra isso é preciso um debate que seja coerente e baseado em fatos.
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2019.04.05 02:36 crowkk Sobre a nossa geração e os filhos que nunca vão existir

Eu passei a minha vida inteira (e acredito que todo mundo que é filho de baby boomer conservadeco) que:

E ouvi isso dos meus pais (principalmente meu pai) e já vi e ouvi e muitos outros lugares pessoal e virtualmente. Tudo isso pra hoje em dia com esse Brasilzão polarizado do jeito que tá (e vide meu pai extrema-direita bolsonarista) dizer: A Europa tá passando por uma crise etária porque os jovens devido a uma maneira de pensar que foi imposta neles e que mudou as gerações mais novas tem tido - em média - menos de um filho por casal.
Em geral eu não espero nenhum tipo de coerência na sentença do meu pai dadas as atrocidades lógicas/históricas/morais que já testemunhei ao longo de minhas duas décadas neste corpo celeste de geometria ainda indeterminada. Mas puta que pariu, qual o caralho da lógica de você passar a vida inteira falando mal de alguma coisa (não só do ato de ter filho, mas de diversas coisas em geral) e depois ficar querendo jogar a culpa da falta de interesse em outro lugar?
A única coisa boa que eu ouço de sobre ter filho é é a melhor coisa que acontece na sua vida. É muita dedicação mas vale a pena. Doidão, vai pro inferno com essa merda. Muita dedicação que vale a pena pra mim é jogar Pokémon c nuzlocke. Pra que caralhos eu vou querer uma dor de cabeça incomensurável num mundo fudido e caro desse maluco? Vale mais a pena pegar essa grana e investir tudo em droga.
E eu não uso droga.
Abraço
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2019.02.19 15:24 Luizbep Os Próximos 3 Meses

Os Próximos 3 Meses
Ei pessoal!

Estamos à espreita em toda a Internet para ver o que vocês têm a dizer. Lembre-se, isso não é uma novidade para nós - fazemos isso o tempo todo. Nós vemos tudo. Uma das coisas sobre as quais você mais tem perguntado é algum tipo de roteiro. O da nossa página da Steam Store é atualizado regularmente, mas não tem datas reais. Nós entendemos, você quer saber o que você pode esperar e quando você pode esperar, mas nós hesitamos em compartilhar qualquer tipo de cronograma porque nunca deu certo para ninguém, então nosso raciocínio foi por que aprender com nossos próprios erros, se podemos aprender com os erros dos outros.

No entanto, desde o início deste nosso projeto de amor, orgulhamo-nos da total transparência com a nossa comunidade, bem como sempre fazendo parte dela e sendo facilmente alcançável por qualquer um que queira dizer oi, fazer uma pergunta ou até mesmo dizer que nós somos um saco. Isso sempre foi muito importante para nós e não vai mudar. Então, com isso em mente, decidi experimentar algo. Conversei com todas as pessoas da empresa e perguntei o que elas farão nos próximos três meses. Ok, nem todo mundo, eu não falei com o Darian porque ele estava fora do escritório na hora de escrever isso, mas eu falei com a gangue de arte dele e eles me deram a sujeira.

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Nós redecoramos seu espaço de trabalho um pouco enquanto ele estava fora. Ele desperta alegria agora.

Mais um aviso antes de começarmos: todas estas coisas devem estar no jogo nos próximos 3 meses. Calculamos a quantidade de trabalho que podemos fazer e vamos nos esforçar ao máximo para cumpri-lo. Isso é algo em que geralmente somos bons. No entanto, qualquer desenvolvedor em qualquer lugar pode confirmar que você nunca sabe. A vida acontece. As pessoas ficam doentes. Pode haver uma invasão alienígena e todos nós podemos morrer. Espero que isso não aconteça, mas se acontecer, não diga que não avisamos.

Vamos começar com algumas notícias do escritório! Recentemente, recebemos nossa primeira equipe de controle de qualidade! Nós temos uma liderança de QA na vida real e 3 novos testadores, então agora não somos mais apenas os testes! Nós temos pessoas para isso! Yay!

Sobre esses veículos! Você pode ter visto o novo modelo de carro em nosso último post de WiP*. O que você não sabia é que não se trata apenas do modelo. Nosso principal programador, Dini, está trabalhando na nova e melhorada física do carro. Neste momento, a mecânica do veículo no jogo ainda é muito básica, mas vamos tentar empurrar mais para o realismo. Por exemplo, o centro de gravidade do carro mudará de acordo com o número de pessoas no carro. Ele também está reformulando o sistema de danos, o que significa que o carro vai reagir de maneira diferente, dependendo se você atirou no pneu ou no motor. Não se preocupe ainda, porque você também poderá repará-lo. Você também terá a habilidade de dirigir e os níveis de habilidade, que obviamente se encaixarão em todo o realismo e na maneira como você dirigirá o carro. Você poderá reivindicar um carro, tranca-lo, destranca-lo e fazer ligação direta. Você também poderá reabastecer. Dini diz que você também poderá atirar no carro, mas não nos próximos 3 meses. A razão para isso é que é um processo longo e excruciante que levará muito tempo para ser implementado, ele tem o suficiente em seu prato e nada disso é relacionado à salada.

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Laranja de sangue, tão pretensioso.

Em seguida é o inventário. Sim, é meio desajeitado e não intuitivo - nós sabemos, temos olhos. O plano sempre foi mudá-lo eventualmente e chegou a hora. Nosso programador Jesus e a artista Ivona estão trabalhando duro em uma revisão completa do inventário e da interface do usuário. Eu não tenho certeza de como será a versão final porque eles têm sido bem secretos sobre isso até agora, mas eu consegui descobrir que você será capaz de empilhar itens e rotacioná-los. Jesus disse que pode ser importante mencionar que ele está reformulando a função de vizinhança e que carros e baús estão finalmente obtendo um espaço de inventário adequado. Ele também disse que eu preciso explicar que não são apenas as atualizações visuais e que muito da revisão será do lado da programação, mas então foi apenas um monte de conversa nerd, então eu apenas fingi ouvir e entender. Peço desculpas a qualquer nerd que ofendi com isso e prometo escrever um post sobre isso assim que eles tiverem mais coisas para mostrar.

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O inventário pode ou não acabar ficando assim. Nós também não sabemos. Ivona diz que é uma surpresa.

Graças a Patrik, em breve você poderá criar uma base também. A primeira versão será compreensivelmente muito básica - você poderá construir uma casa usando uma planta, da mesma forma que constrói um abrigo. Nossa equipe de arte já está trabalhando nos modelos, mas essa não é a única coisa em que eles estão trabalhando. Você viu algumas das novidades em nossa última postagem no WiP: estamos adicionando uma pedreira, uma mina, um hospital para doentes mentais, um antigo castelo, uma mina de sal, um observatório e uma cidade totalmente nova. Ativos urbanos, baby!

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Malha quente.

Além da habilidade de dirigir, estamos reformulando a habilidade culinária a partir do zero, o que também exige um bom retrabalho do metabolismo. Esse é o trabalho de Bruno e ele já está nisso. Ele também é responsável pela habilidade de demolição, que não inclui apenas bombas - você também terá todos os tipos de armadilhas. John está trabalhando na habilidade de arco e flecha. Ele está indo all-in, então você também terá diferentes tipos de arcos com diferentes tipos de flechas - algumas delas você não poderá usar se sua habilidade for muito baixa ou se você for fraco demais. Você até conseguirá um silenciador de proa - achei que ele estava mexendo comigo também, mas aparentemente eles são reais. Quem sabia. Com a ajuda de nossos animadores, John também está reformulando as animações de primeira pessoa, então, se tudo correr conforme o planejado, a coisa toda parecerá muito mais realista. Também estamos adicionando suporte para RPGs e nosso primeiro revólver!

Nosso novo programador Goran está preparando as primeiras missões e objetivos da missão! Eu não posso te dizer nenhum detalhe ainda, mas você não terá que esperar muito para conferir. Você também receberá um tutorial real, caso não consiga descobrir o jogo sozinho. Fraco.

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Logo você poderá fazer seus inimigos tremerem de medo.

Os próximos 3 meses também verão a introdução de conquistas! Estes estão sendo preparados por Dobrila no lado da programação e Ivona no lado da arte. A cópia está sendo preparada pela equipe meme, então espere algumas coisas engraçadas. Ou cringey, ainda não decidimos.

Por favor, não grite sobre este próximo, mas estamos adiando as personagens femininas. Ok, nós não estamos literalmente adiando-as porque nós nunca as anunciamos oficialmente, mas o plano original era liberá-las para o dia ddos namorados, o que obviamente não aconteceu. A razão para isso é que as mulheres são muito difíceis de animar. SÓ BRINCANDO! A razão é que começamos a trabalhar nelas com toda a intenção de terminá-las no prazo, mas ao longo do caminho percebemos que há muito mais na coisa toda e não podemos simplesmente colocar uma modelo feminina na mecânica masculina e pronto. Lembre-se de como temos esse elaborado sistema de metabolismo e como eu já mencionei que Bruno está retrabalhando a habilidade de cozinhar que também está ligada ao metabolismo? Sim isso. Cada peça de roupa também precisa ser ajustada para o corpo feminino. Esse vai ser o trabalho de Danijel, que Deus o ajude. Isso não significa que paramos de trabalhar nas personagens femininas - ainda estamos, mas realmente não queremos isso, então vamos adiá-las um pouco. Eu disse um pouco, então pare de gritar, o tempo é uma construção social.

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Agora que a pior parte está fora do caminho, vamos voltar ao que mais estamos adicionando nos próximos 3 meses. Nós vamos adicionar algumas novas animações e insultos também. Eu perguntei ao nosso animador Iggy se ele sabe o que ele quer fazer e ele ainda não disse, então se você tiver alguma sugestão para ele, por favor, escreva-o nos comentários e sua ideia de provocação pode acabar no jogo!

Estamos trabalhando no cabelo, bem como cabelo masculino, cabelo feminino, barba, cabelo na cabeça, pêlos no corpo, todos os tipos de cabelo. Você será capaz de crescer, cortar ou raspar, então estamos com as mãos ocupadas.

E por último mas não menos importante - estações! Nós testamos a neve com a nossa atualização de Natal e a maioria de vocês disseram que gostaram, então deixamos alguns no norte, para o caso de você querer andar de trenó mais tarde também. Bem, em breve você terá temporadas reais e tudo o que acontece com elas.

Eu posso ter perdido alguma coisa acidentalmente ou de propósito, mas espero que agora você tenha uma melhor imagem da nossa agenda. Você ainda estará recebendo seus posts regulares de WiP por Josip, assim como algumas outras surpresas da equipe de marketing, então não se preocupe! Apenas lembre-se - estamos assistindo. Estamos sempre assistindo.

Te amo, tchau!
___________________ * Work in Progress.
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2018.01.23 01:09 lucius1309 INEVITÁVEL

Um dia você achou estar cansado quando na verdade estava era exausto de tudo e de todos e todas aquelas músicas reverberando sua mente. Você farreou pra caralho até seu fígado ir pra merda e não satisfeito, fez ele ir ainda mais pra merda, como se estivesse o desafiando pra uma briga de degladeadores insanos em busca de uma morte indolor. Havia uma certa incerteza de que todos que se diziam certos estavam errados. Batia na máquina incessantemente escrevendo asneiras se achando o grande gênio da literatura atual, escrevendo poeminhas de amor pra passar a rola em uma ou outra menininha. Atualmente tem fugido delas (as mulheres), e não se sente mal com isso. Comeu outra noutro dia, digo, noite, daquelas regadas à farra e cocaína, ela passou o telefone, você anotou e nunca retornou de volta. Você a jogou no lixo assim como um escritor machão, durão das antigas, daqueles que fumam cigarros atrás de cigarros esperando pelo texto perfeito, se dividindo em subempregos, ganhando um salário por mês e pensando em suicídio todos os dias da sua vida.
Agora mudando a narrativa do texto porque eu quero e foda-se. Eu quero assim, portanto vai ser assim. Já que não posso mudar o mundo, que ao menos eu possa mudar meu mundo usando minha única arma que tenho à mão: meus textos.
Meu celular está no silencioso faz mais de uns meses, e tem sido bom assim. Quer dizer, menos gente chata enchendo a porra do meu saco. Coçando a barriga agora eu olho pra esse texto e penso que ele está uma grande de uma merda. Mas coço a barriga novamente e torno a escrever, porque sem isso, eu estava beirando a loucura e o suicídio. A psicóloga (do governo baby, não tenho como pagar uma), me disse pra arrumar a velha máquina de bater desespero, e bom, isso que fiz. Ela disse que iria me fazer bem, e imagino que tenha feito. Não que tenha desistido da ideia do suicídio, mas a cada sentença que vomito aqui, ele parece mais e mais cansativo e tedioso. Quero dizer, o que seria do mundo sem mim? Já pensei nisso. O caminhão de lixo passaria do mesmo jeito, meu emprego continuaria pagando o que paga com funcionários insatisfeitos. Meus amigos continuariam se afundando em drogas e bebidas e minha família, bom, minha família sobreviveria. Nenhum luto é eterno. Mas como eu ia dizendo, acho que essa vagabunda mal paga do Estado me deu uma boa ideia. O mundo precisa de loucos como eu, porque sem loucos como eu, o mundo é um grande buraco com zumbis que fingem viver. Que bebem, fodem, casam, tem filhos, fodem mais, fazem mais filhos. Os maridos insatisfeitos e as mulheres abrindo as pernas por obrigação. O marido não sabendo comer um cu, mesmo comendo ele há pelo menos 10 anos. O que escrevo não vai parar nos jornais, ou em blogs da moda, pois eu não defendo esquerda, direita ou qualquer ideologia barata. Meu alimento é o sofrimento que assisto todos os dias de falsas pessoas sorrindo fingindo que não sofrem. Uma barata num boteco sujo tem mais história pra contar do que pessoas assim, e talvez por isso que sempre que uma sobe na minha mesa eu a trato como uma velha amiga. Não existe essa de esperar acontecer, ou de torcer pra acontecer, você tem o dever e a obrigação de fazer a sua vida acontecer, do jeito que ela te faça feliz. Se por acaso você odeia seu emprego, você devia sair dele. Se odeia seu casamento, saia dele. Odeia seus filhos, não converse com eles. As pessoas que se fodam. Se afunde no seu egoísmo, viva seu mundo e esqueça do resto. Uma hora ou outra essa bola vai pegar fogo, eu, você e todo o resto estaremos mortos e esse texto vai ser passado. Passado de um futuro que é preferível que nem exista.
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